Sessenta segundos
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1 Sessenta segundos Os pensamentos são como micróbios pequenos coloridos e agitados, insistentes insinuantes monstros que vêm e vão e voltam e trazem incessantemente, ocupando com a sua qualidade e sabor o nosso tempo, ser e substância. Como acontece com os seres humanos, há os de todas as formas e feitios – lindos e feios, curtos e longos, alegres e tristes, concentrados, despreocupados, decentes e menos decentes. Esses malandros envolvem-nos em abraço apertado e no próximo instante já não existimos mais como entidades separadas. Nós e eles somos superfície de uma mesma esfera um só. Passavam exactamente quinze minutos e cinco segundos das nove e os micróbios iam e vinham, não deixando Paulo em paz. Sabia, de intuição forte e segura, que lhe restava pouquíssimo tempo. Não se lembrava como descobrira, nem imaginava como iria ser. A imaginação, essa ganhava asas emprestadas pelo medo e voava alto mostrando cenários aterrorizantes: esmagado ao atravessar a estrada, vítima de interposição entre desavença de adolescentes, assaltado por bandidos em sua própria casa. Como iria ser? De repente já não existiam lugares seguros. Não podia, não aguentava ficar sozinho nesse momento. Com estas confabulações, encarou o bengaleiro e vestiu o casaco castanho. Dirigiu-se para a porta. Saiu.