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O FUNCHALE OS RITMOS HISTÓRICOS DE UMA CIDADE PORTUÁRIA ALBERTO VIEIRA O Funchal definiu-se no percurso histórico da Madeira como uma cidade portuária1 . A dominância, desde o início do assentamento europeu, de uma economia de exportação estabeleceu para a nova urbe determinadas funcionalidades económicas que pautaram o ritmo de vida e de evolução urbanística tão características deste tipo de cidades. Por outro lado a História económica da ilha assentou na dependência externa e numa forte influência do exterior. Acresce ainda que a Madeira esteve sujeita a diversos ciclos económicos (e não produtivos de monocultura como erradamente se pretende afirmar) que pautaram este percurso e tiveram reflexos na vida de cidade. A dominância de culturas de exportação provocou momentos de grande prosperidade a que se seguiram inevitavelmente outros de crise. Deste modo enquanto a elevada acumulação de capital no primeiro momento provocou o “boom” da construção e valorização urbanística, o segundo foi responsável pelo seu abandono e degradação. E, finalmente, nova época de prosperidade económica conduzirá a profundas alterações que são a imagem da nova realidade, de opulência. Os escombros do passado desaparecem da memória colectiva para dar lugar a esta nova situação. O Funchal por tudos isto foi uma cidade em permanente mutação e por isso mesmo será difícil de encontrar na malha urbana núcleos que sejam testemunho de uma paragem no tempo. Com uma economia em permanente mudança é difícil encontrar no Funchal a sobrevivência de uma cidade de uma determinada época, mas apenas os vestígios mais destacados dos momentos de prosperidade. Tudo isto porque o percurso histórico de cidade é o de uma urbe portuária. Foi a partir do porto que ela se desenvolveu. E o facto de ser a porta aberta ao exterior conduziu a que permanecessem alguns rasgos característicos. São prova disso as torre-avista-navios e a forma concentrada de valorização do núcleo urbano em torno da alfândega e cabrestante. Aqui situavam-se as lojas e granéis de trigo. Note-se que as torres altaneiras não são apenas apanágio da arquitectura madeirense, pois vamos encontra-las noutras cidades portuárias do Mediterrâneo com é o caso de Cádiz. Tenha-se em conta que a Casa da Misericórdia é referida por Frutuoso pela sua função portuária: “. . . curando muitos enfermos e remediando muitos pobres e necessitados, não somente da mesma ilha, mas que vêm de fora, de diversas partes e navegações, ter a ela, que é rica e abastada, e piedosa escala e refúgio de todos. ”2 Olhando de forma retrospectiva para o passado podemos definir de forma sucinta tais momentos que influenciaram de forma decisiva a História da urbe. Entre meados do século XV e da centúria seguinte o açúcar permitiu que se traçasse os limites da nova cidade e as diversas funcionalidades. As primitivas casas de palha deram lugar às de telha, levantadas de forma imponente. E as ruas de terra batida começam a ser calcetadas. A concorrência do açúcar de novos mercados produtores acabou por estagnar a economia açucareira. E só a partir da segunda metade do século XVII o vinho assume o papel substitutivo, mantendose em alta até princípios do século XX. Daqui resultará um movimento de renovação da urbe adequando-a a estas novas funcionalidades. Deste modo as habitações sobem em número de pisos, deixando o andar 1 . O tema das cidades portuárias tem merecido a atenção da Historiografia nos últimos anos. Cf. A. Guimerá e Dolores Romero, Puertos y Sistemas Portuarios(siglos XVI-XX), Madrid, 1996; F. Broeze, Brides of the Sea. Port Cities of Asia from the 16th-20th centuries, Honolulu, 1989,; F. W. Knight, Atlantic Port Cities. Economy, culture and Society in the Atlantic World, 1650-1850, Knosville, 1991; 2Livro primeiro das Saudades da Terra, p. 117. 1